Dignità: niente di più prezioso

Dignità: niente di più prezioso

Esta é a Heba (que significa “presente de Deus”). Vive no campo de Abu Ali em Mafraq. Veio da Síria, no início da guerra com a sua família, e instalou-se neste descampado enorme onde, de todos os lados, as estrelas e a lua a presenteiam com o mais belo espetáculo de luzes todas as noites. Depois das tendas têm agora casinhas simples de tijolo, uma fonte de água, eletricidade, cultivo e criação próprios, formas de ir até à cidade (que fica bem longe) para ir à escola, ao hospital e, para quem conseguiu, trabalhar.

É uma menina especial: não caminha nem interage como as outras crianças. Mas ri-se com as
gargalhadas mais espontâneas que já vi. Não vai à escola, e, provavelmente, passará os seus dias em
casa. A melhor ajuda para ela, seria a família mudar-se de cidade para ter melhor apoio. Mas a família recusou ajuda neste sentido: depois destes anos todos de luta, tinham finalmente uma comunidade onde se sentiam bem, um novo sítio ao qual podiam chamar casa, que tinham construído com o seu próprio esforço. Tinham ganho novamente a dignidade perdida desde o início da guerra na síria.

Dignidade. Sim. Esta é a palavra que mais me ficou gravada no coração depois destes 15 dias na
Jordânia. 15 dias. Nos primeiros dias, não sabia bem o que estava a fazer na Jordânia. Ia à espera de distribuir refeições, material escolar, fazer limpezas, ensinar inglês e outros afins de cariz muito prático com os refugiados que ali encontrasse… Mas cheguei, e fui colocada numa posição que me é particularmente desconfortável: aquela de simplesmente estar, fazer companhia, ouvir… Na maioria das vezes, sem nenhuma daquelas coisas que pensava que iria fazer, e que, para mim, seriam uma desculpa para conhecer estes refugiados.
Mas foi aí que alguém disse uma coisa que não esqueço “As ajudas e os bens vão e vêm, mas a capacidade de ir apenas para ouvir a história do outro, e simplesmente estar ali, é um bem precioso difícil de encontrar”. Foi aí que pus em causa, tudo o que fazia no meu dia-a-dia, a postura que tinha com as pessoas, o quanto precisava de arranjar uma desculpa ou uma atividade para estar com as pessoas em geral. E era incapaz de estar tranquila só por estar com elas, sem olhar para o relógio.
E foi com esta mudança de mindset e, também, de postura que procurei fazer a experiência de ir a casa destas famílias de refugiados (sobretudo sírios), receber o chá, o café e os bolos que nos faziam com tanto amor e tanto orgulho, conhecer a família deles, a história de cada um deles, partilhar um bocado da nossa, e simplesmente estar lá. E foi tão bonito! E aquelas histórias. Parecia-me impossível colocar-me na pele do outro. Quase nenhum de nós, ocidentais, experimentámos o início de uma guerra, ver a nossa casa a destruir-se em frente aos nossos olhos, ver os nossos mais queridos (adultos e crianças) a serem mortos sem nenhum critério, ou sem saber sequer onde estão, e sermos obrigados a fugir para um sítio qualquer, deixando toda uma vida para trás. Mas não só uma vida. Eram pessoas, familiares, amigos…

Tinham todo o direito de estarem tristes, deprimidos, sem vontade de viver. Mas não! Apesar de isso poder acontecer pontualmente, não foi isso que vi na maior parte das situações: vi pessoas felizes. Felizes de estarem, aos poucos e poucos, construir as suas próprias casas, as suas próprias
comunidades, de conseguirem colocar todas as crianças na escola (mesmo que em horário reduzido), de conseguirem ir ao médico, de conseguirem ter mais filhos e de constituírem família, e de, nalguns casos, conseguirem um trabalho. E era também com um orgulho imenso que nos ofereciam o melhor chá, o melhor café, os melhores bolos, e o melhor lugar da sua casa, para nos receber, para nos contar a sua história.

E as crianças. Um mar de alegria e de energia sem fim. Uma vontade de aprender gigante, mas
também uma alegria enorme quando nos tentavam ensinar uma ou outra palavrita em árabe. Que nunca
se importam se o colega do lado é muçulmano ou cristão, se se veste de uma forma ou de outra, se é
jordano ou sírio. Não importava. Importava a brincadeira, o estarem juntos.
E por fim, o povo jordano, que moveu – e continua a mover – mundos e fundos para acolher refugiados de qualquer país, nas suas comunidades, não deixando nenhum para trás, sem se importar com a bandeira originária de cada um. É isto que trago para casa: um amor enorme por este povo árabe. Atingido por mil e uma intempéries, mas que consegue vencê-las com uma postura grande humanidade por cada indivíduo, capacitando-o da dignidade que todo e qualquer ser humano merece.

Obrigada,
Ana

 

Questa è Heba (che significa “dono di Dio”). Vive nel campo di Abu Ali a Mafraq. È venuta dalla Siria all’inizio della guerra con la sua famiglia e si è stabilita in questo enorme campo aperto dove, su tutti i lati, le stelle e la luna le regalano lo spettacolo di luci più bello che c’è ogni notte. Dopo aver vissuto in tende, ora hanno piccole casette di mattoni, una fonte di acqua, elettricità, i loro raccolti e i loro animali, modi per andare in città (che non è così vicina) per andare a scuola, in ospedale e – per coloro che possono – a lavorare.
Heba è una ragazza speciale: non cammina né interagisce come gli altri bambini. Ma ride con le risate più spontanee che abbia mai visto. Non va a scuola e probabilmente passerà tutte le sue giornate a casa. Il miglior aiuto per lei sarebbe che la famiglia andasse ad abitare in città per avere un sostegno migliore per il suo sviluppo. Ma la famiglia ha rifiutato aiuti di questo tipo: dopo tutti questi anni di lotta, hanno finalmente avuto una comunità in cui si sentivano bene, un nuovo posto che potevano chiamare casa, che avevano costruito con i propri sforzi. Avevano riacquistato la loro dignità perduta dall’inizio della guerra siriana.

Dignità. Sì. Questa è la parola che è rimasta incisa più profondamente nel mio cuore dopo questi 15
giorni in Giordania. 15 giorni. All’inizio non ero sicura di cosa stessi facendo in Giordania. Speravo di distribuire pasti, materiale scolastico, ripulire, insegnare inglese e simili con i rifugiati che avrei trovato lì, ma sono arrivata e mi sono trovata in una posizione particolarmente scomoda: quella di semplicemente stare, fare compagnia, ascoltare… a volte senza nessuna di quelle cose che pensavo di fare, e che, per me, sarebbe stata una scusa per incontrare questi rifugiati.
Ma c’è stato un momento in cui qualcuno ha detto qualcosa che non dimentico: “Gli aiuti e i beni vanno e vengono, ma la capacità di andare solo per ascoltare la storia dell’altro, e semplicemente per essere lì, è un bene prezioso difficile da trovare”.
In quel momento ho messo in discussione tutto ciò che facevo nella mia vita quotidiana, l’atteggiamento che avevo con le persone, quanto avevo bisogno di trovare una scusa o un’attività per stare con le persone in generale. E quanto non riuscivo a stare tranquilla solo stando con loro, senza guardare l’orologio.
Ed è stato con questo cambiamento di mentalità e atteggiamento che ho cercato di fare l’esperienza di andare a casa di queste famiglie (soprattutto siriane) di rifugiati, per ricevere tè, caffè e torte che ci hanno reso con tanto amore e orgoglio; conoscere la loro famiglia, la loro storia, condividere anche molto di noi ed essere lì. Ed è stato tanto bello!
E quelle storie. Sembrava impossibile mettermi nei panni dell’altro. Quasi nessuno di noi occidentali ha vissuto l’inizio di una guerra, vedendo la nostra casa sgretolarsi davanti ai nostri occhi, vedendo i nostri cari (adulti e bambini) essere uccisi senza alcun criterio, o non sapendo nemmeno dove sono, e quasi nessuno di noi ha sperimentato il dover fuggire da qualche parte, lasciandosi una vita alle spalle. Ma non solo una vita. Erano persone, famiglie, amici…
Avevano tutto il diritto di essere tristi, depressi, non disposti a vivere. Ma no! Anche se questo può
accadere qualche volta, non è quello che ho visto nella maggior parte delle situazioni: ho visto delle persone felici. Felici di costruire gradualmente le loro case, le loro comunità, essere in grado di mandare tutti i bambini a scuola (anche a orari ridotti), essere in grado di andare dal medico, essere in grado di avere più figli e crescere famiglia e in alcuni casi trovare lavoro. Ed è stato anche con immenso orgoglio che ci hanno offerto il miglior tè, il miglior caffè, le migliori torte e il miglior posto nella loro casa, per darci il benvenuto, per raccontarci la loro storia.
E i bambini. Un mare di gioia ed energia infinita. Un grande desiderio di imparare, ma anche una grande gioia quando cercavano di insegnarci una o l’altra parola in arabo. A loro non importava se i loro compagni erano musulmani o cristiani, se si vestivano in un modo o nell’altro, se erano giordani o siriani. Non importava. Importava il giocare, lo stare insieme.

E infine, il popolo giordano, che ha fatto di tutto per accogliere i rifugiati di qualsiasi Paese nelle loro comunità, senza lasciarne indietro nessuno, nonostante la loro bandiera di provenienza. Questo è ciò che porto a casa: un grande amore per questo popolo arabo. Colpito da molte situazioni critiche, ma che riesce a superarle con un atteggiamento di grande umanità verso ogni individuo, riconoscendogli la dignità che ogni essere umano merita.

Grazie,
Ana

 

This is Heba (meaning “gift from God”). Lives in Abu Ali camp in Mafraq. She came from Syria at the beginning of the war with her family and settled in this huge open field where, on all sides, the stars and the moon present her with the most beautiful light show every night. After the tents, they now have simple brick houses, a source of water, electricity, their own crops and upbringing, ways to go to the far-off city to go to school, the hospital, and for those who can, work.

She is a special girl: she does not walk or interact like other children. But he laughs at the most
spontaneous laughs I’ve ever seen. She doesn’t go to school, and probably spend her days at home.
The best help for her would be for the family to move to a different city for a better support. But the family refused help in this regard: after all these years of struggle, they finally had a community where they felt good, a new place they could call home, which they had built with their own efforts. They had regained their lost dignity since the beginning of the Syrian war.

Dignity. Yes. This is the word that was most deeply engraved on my heart after these 15 days in Jordan. 15 days. In the first days I was not sure what I was doing in Jordan. I was hoping to distribute meals, school supplies, cleaning, teaching English and stuff for the refugees, but, when I arrived, and I was placed in a position that is particularly uncomfortable for me: that was simply being, making company, listening… Sometimes without any of those things I thought I was going to do that would be an excuse for me to meet these refugees.

But that’s when someone said something I won’t forget, “Aid and goods come and go, but the ability to go only to hear the other’s story, and simply to be there, is a precious gift hard to come by”.

That’s when I starter to question everything I did in my daily life, the attitude I had with people, how much I needed to find an excuse or activity to be with people in general. And I was unable to be calm just by being with them, without looking at the clock. And it was with this change of mindset and attitude that I tried to make the experience of going visiting the houses of some (mainly Syrian) refugee families, to receive tea, coffee and cakes that they made us with such love and pride; to get to know their family, their history, share a lot of ours also, and just be there with them. And it was so beautiful! And their stories. It seemed impossible to put myself in the other’s place. Almost none of us Westerners have experienced the beginning of a war, seeing our house crumbling in front of our eyes, seeing our dearest (adults and children) being killed without any criteria, or not even knowing where they are, and we have to flee somewhere, leaving a life behind. But not just a life. They were people, family, friends…

They had every right to be sad, depressed, unwilling to live. But not! While this may happen once in a while, that’s not what I saw in most situations: I saw happy people. Happy to be gradually building their own homes, their own communities, being able to put all the children in school (even at reduced schedule), being able to go to the doctor, being able to have more children and to raise a new family, and in some cases, to get a job. And it was also with immense pride that they offered us the best tea, the best coffee, the best cakes, and the best place in their house, to welcome us, to tell us their story. And the kids. A sea of joy and endless energy. A giant desire to learn, but also a huge joy when trying to teach us one or another word in Arabic. They never care if their fellow man is Muslim or Christian, if he dresses one way or another, whether he is Jordanian or Syrian. It didn’t matter. It mattered the joke, being together.
And finally, the Jordanian people, who have worked – and still do – to welcome refugees from any country into their communities, leaving none behind, regardless of their original flag.
This is what I bring home: a huge love for this Arab people. Hitted by a lot of by situations, but that
manages to overcome them with a great human posture for each individual, empowering him with the dignity that every human being deserves.

Thank you,
Ana